quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Aula de Geografia

Sonhar com o Impossível 
Uma experiência de diálogo por meio do rap prova que a árdua atividade do professor em uma escola pública pode ser encarada com criatividade
Sonhar mais um sonho impossível (...)
Vencer o inimigo invencível (...)
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Chico Buarque



 Sigo – com a estrofe da música de Chico Buarque na cabeça – para mais um dia de aula em uma escola estadual da periferia de São Paulo. Lá estudam 800 crianças que, naquele momento, transitam pelos corredores de cimento cobertos por telhas de amianto. Na sala de aula me aguardam 40 alunos de 6ª série. No conteúdo programático, devo falar sobre o Brasil, suas regiões, características físicas, sociais, econômicas. Estou ali para apresentar o nosso país: desigual; barroco e moderno; profundo e gentil.
 Desempenho meu papel e busco fazer os alunos entenderem o que digo. Antes, porém, de qualquer conteúdo, preciso que diminuam a energia, que se sentem em suas respectivas carteiras e que se estabeleça um silêncio favorável à minha prática. Não é fácil, mas quase todos me escutam, menos o Daniel (nome fictício), que anda pela sala, pedindo caneta, lápis, etc. O inquieto não faz a tarefa enquanto canta um rap.
 Ministrar uma aula, não é apenas transmitir um conteúdo, mas também relacionar-se. Próximo ao toque do sinal de intervalo, dispenso a turma, exceto Daniel, com quem inicio um diálogo. Na conversa, aos poucos entendo por que ele é um andarilho na sala... “Aprendi a ler faz pouco, professora”. Pergunto, incrédula, como passou até aquele ano se aprendeu a ler recentemente. “Aprendi nas aulas de reforço, por isso demoro a copiar.” Foi então que percebi que ele mal escreve e sim desenha as letras. Quando bate o sinal, afoito em sair para o recreio, ele me pergunta se gosto de rap. “Um pouco”. Passo a mão em sua cabeça e ele sai cantando o seu ritmo predileto...
Passaram-se alguns anos e, na 1ª série do ensino médio, encontro o Daniel novamente. Fico sabendo que ele ficou retido na 8ª série. Nos anos subseqüentes àquele do nosso primeiro contato, sua aprovação fora automática. Apesar de seu aprendizado deficiente, considerando sua freqüência, ele foi sendo aprovado pela política de progressão continuada da Secretaria de Educação, pela qual os alunos são retidos apenas em final de ciclos, ou seja, 4ª e 8ª séries do ensino fundamental.
Dessa vez, o conteúdo a ser dado versaria sobre mudanças geopolíticas dos anos 1990. No entanto, passados os anos, a prática pedagógica teve de mudar, de se adaptar aos alunos e às suas realidades. Agora estavam reunidos na sala mais de 40 estudantes, e o assunto específico era a desigualdade das nações – a divisão norte e sul. Após uma aula teórica, a estratégia adotada seria a realização de um trabalho de pesquisa em grupos de três alunos, a ser entregue na aula seguinte, devendo eles buscar exemplos das diferenças entre países economicamente ricos e pobres.

Naquele momento da aula os alunos fariam exercícios e depois, reunidos em grupos, transcreveriam trechos de uma música, à sua escolha, que demonstrasse senso crítico e as diferenças sociais no nosso país. A letra da música seria apresentada à classe através do canto ou da dança.

Como era de se esperar, lá estava o Daniel querendo cantar. Sua dificuldade de escrever ainda persistia; porém, ajudando uns aos outros, os alunos apresentaram letras de diversas músicas. Uma delas, O Homem na Estrada, dos Racionais MCs, ficou na memória. É crítica e desigualdade social pura. Os alunos sabiam de cor a letra de mais de 100 linhas, que fizeram questão de escrever no mesmo instante e apresentar cantando os seus versos, como:

Esse é o palco da história que por mim será contada Um homem na estrada
equilibrado num barraco incômodo, mal-acabado
e sujo,porém, seu único lar, seu bem e seu refúgio
Um cheiro horrível de esgoto no quintal, por cima ou
por baixo, se chover será fatal
Um pedaço do inferno, aqui é onde eu estou
Até o IBGE passou aqui e nunca mais voltou
Numerou os barracos, fez uma pá de perguntas.
Logo depois esqueceram(...)


Essa pequena história de sala de aula, breve retrato da necessidade de mudanças na prática pedagógica, foi bem-sucedida. Contudo, sabemos que nem sempre é assim. As boas idéias requerem, sim, trabalho em conjunto; no entanto, um conjunto de trabalhos é necessário para transformar a dura realidade que encontramos na escola pública. Convive-se com problemas profundos como agressividade, falta de preparo de professores, defasagem de aprendizado dos alunos, salas superlotadas, burocracia, salários aviltantes, políticas educacionais inadequadas... e todos esses descaminhos nos impedem de andar na estrada certa, mas não de sonhar com o impossível.

Dulce Tobias é licenciada em geografia pela Universidade
de São Paulo (USP), professora da rede pública e Afam
Educacional – concursos e pré-vestibular.

Amadurecimento

Ama-dure-cimento



O que me deixa mais triste
é saber que as coisas mudaram,
que nada vai ser como era antes
que as amizades se foram,
que os sentimentos se acabaram,
que o carinho não mais existe
e que a confiança se transformou.

Tudo mudou, e era assim que tinha de ser
o que era efervescente congelou
o que representava não mais representa
o que era verdade agora é mentira
o que era sempre se tornou às vezes
o que era eu agora já não é mais

Perdi o poder de pedir
perdi pessoas e perdi momentos
perdi chances e perdi a coragem
perdi tempo e perdi sentimentos
perdi a capacidade se ser o que já não mais sou...